O silêncio de um inocente

O silêncio de um inocente

Era uma vez uma criança…

Fomos bombardeados recentemente com a notícia de que um menino, de 11 anos de idade, foi brutalmente assassinado, por pessoas muito próximas a ele, pessoas estas inseridas no seu contexto familiar.

Diante desta violência, fomos todos invadidos por diversos sentimentos,
desde indignação, compaixão como também impotência.
Minhas reflexões sobre esta situação baseiam-se simplesmente nas informações que a imprensa forneceu. Não escrevo para julgar, nem para acusar ninguém, seja sua família, sua grande família ou mesmo a comunidade da qual ele estava inserido. Isto cabe à Justiça e aos tribunais.

O fato é que, pelo que tudo indica, esta criança, que já havia perdido a mãe de forma abrupta, lutava por atenção e amor e tentou, a sua maneira, ser ouvida. Porém, ele não foi socorrido a tempo, e ao invés de se compreendido e atendido foi assassinado.

Bernardo não foi a única criança no mundo a ter este fim. Infelizmente, é bem provável que não seja o último. Além disso, milhares de crianças podem não estar sendo ouvidas neste momento, não necessariamente pelos mesmos motivos, e sem que seu desfecho seja a morte, sem que com isso os pais desejem a morte.

Aliás, a morte não é o único final trágico para uma criança. A sensação de não ser cuidada, compreendida, amparada ou ouvida, leva certamente
com o passar do tempo a profundas sequelas, que geram os mais diversos sintomas.

Depressão, irritabilidade, choro frequente, baixo rendimento escolar, problemas de relacionamento, de comportamento ou psicossomáticos, às vezes podem ser sinais da falta de escuta e de uma ação acolhedora.

Muitos se perguntam: Como ouvir então uma criança? Como captar se aquilo que ela diz é real ou fantasioso, ou mesmo fruto de uma ‘falsa memória’ implantada por um adulto perturbado?
De qualquer forma, se há distorções ou fantasias, temos que entender as razões pelas quais uma criança necessita fazer isso.

É preciso saber ouvir com os ouvidos, com os olhos, com as emoções e com a razão. É também necessário, acima de tudo, conviver com a criança, perceber suas reações, estar atento aos detalhes.
É com tudo isso que se constrói o entendimento e a compreensão a respeito da criança.

Também temos que levar em consideração o fato de que muitas crianças não falam, se emudecem diante dos fatos. Estas dão outros sinais de sofrimento. Por isso, não basta apenas ouvir o que é dito, o que é verbalizado, mas aquilo que não é dito, o que é transmitido pela conduta.

Portanto, escutem seus filhos, seus alunos, seus pacientes. Mas não basta somente ouvir, é preciso conviver, e não basta conviver, é preciso compreender e acolher. E se houver alguma dúvida, procurem ajuda, antes que seja tarde.

Texto publicado na edição impressa número 15, junho 2014

Soraya Koch Hack
Psicóloga, Psicoterapeuta
Especialista e Mestre em Psicologia Clínica
Diretora de Ensino do IPSI – Instituto de Psicologia

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