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Por que carregamos tanta culpa?

Por que carregamos tanta culpa?

Por que carregamos tanta culpa?

Falemos de uma grande invenção humana. Uma invenção que muda vidas e determina destinos, conduz pessoas, casais e até famílias inteiras rumo ao sofrimento permanente.
Falo do sentimento de culpa. Tão antigo entre nós que não se pode determinar sua origem. Esse hábito no qual somos assíduos, parece já uma característica de nossa essência, algo com que nascemos.
Mas a verdade é que se trata de algo erigido, de forma civilizacional e religiosa.

Essa invenção vem da mesma fonte que permeia a civilização ocidental. Falo da moral judaico-cristã. Essa moral foi formada sobre crenças segundo as quais o criador, Deus, seria alguém muito severo, exigente, que impunha suas vontades. Deus, de fato, é misericordioso, exime de culpa os que se arrependem de seus deslizes ou pecados, mas, independentemente disso, o sentimento de culpa já está incrustrado o bastante no ethos (a forma de ser, o caráter, os valores éticos e hábitos) dessa civilização.
À parte da questão religiosa, sejam as pessoas crentes ou céticas, o fato é que, no dia a dia, é difícil escaparmos dessa sensação de culpa – desagradável e, por vezes, paralisante.

Divido com vocês algumas manifestações que já ouvi. Coisas como:
“Sou culpada por meu filho usar drogas. Eu errei na educação dele e por isso ele se perdeu na vida…”
“Minha mulher me abandonou por culpa minha. Eu poderia ter agido de forma diferente e ter evitado a separação…”
“Estávamos brigados quando meu pai morreu. Tudo culpa minha! Será que eu o matei por desgosto?”
“Não quero mais saber de mulher. Culpo minha noiva porque estragou minha vida, me deixou…”
“Onde eu errei?”
E por aí vai.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que, sim, sempre poderíamos ter agido de modo diferente, para melhor ou para pior. Poderíamos, mas não fizemos naquele momento. Fizemos o que foi possível ter feito. A vida é assim.
Vamos agindo conforme nossos impulsos, projetos, reflexões, aparentes certezas e segundo as contingências que se apresentam.
O filósofo espanhol Ortega y Gasset definiu o eu de forma perfeita: “Eu sou eu e minhas circunstâncias.”
Ou seja, somos aquilo que somos, mas em constante adaptação a tudo que nos acontece.

Sem sombra de dúvida, a pior culpa que podemos carregar não vem do apontamento de Deus, mas de dentro de nós mesmos. Inconscientemente, o culpado perpetua esse sofrimento, como se necessitasse penitenciar-se, castigar-se. Por um desejo masoquista de solidificar esse sentimento, busca fora de si a origem do sofrimento, achando culpados e malfeitores que justifiquem a razão de seu transtorno. Evidentemente, não é nada difícil achar culpados em nosso entorno.
Assim, vai sedimentando-se esse mal-estar, que, aparentemente, ficaria sem solução, e se repetiria para sempre. Para aplacar o sentimento de culpa, o sujeito desenvolve então um ritual de penalização, penitência e purgação, para tentar se livrar deste mal. É claro que não existirá solução através desse caminho.

Seguindo essa linha de pensamento, em que o sentimento de culpa é uma produção do indivíduo e não de Deus, descreverei duas estruturas que estão presentes no imaginário das pessoas, em maior ou menor intensidade.
Falo do sentimento de grandiosidade e do de onipotência. Esses dois mecanismos se parecem e costumam andar juntos. Criam na mente do sujeito uma ideia de que ele é muito poderoso, o senhor da verdade. Autoriza-se então a meter-se em tudo; sabe o que é bom para os outros e acha que tudo pode resolver. Fica irado, contrariando-se. Deus pode ser onipotente, onipresente e onisciente, mas nós seres frágeis e mortais… Aí é demais!
Dentro desse sujeito que se imagina tão poderoso, desenvolve-se o caldo de cultura perfeito para proliferar o sentimento de culpa e, consequentemente, se proporciona uma vivência no sujeito de que ele é o causador de todas as desgraças. É a egolatria. Eu, eu, eu.

Volte nos exemplos que dei de pessoas que se culpam e repare que a palavra “eu” é muito recorrente.
Pode parecer paradoxal, afinal de contas, quem se culpa muito estaria aparentemente abatido, colocando-se para baixo, triste. Contudo, se a pessoa está colocando em sua própria conta o resultado de todos os seus fracassos, é porque ela julga que tem um poder enorme, sempre capaz de mudar o rumo dos acontecimentos; logo, se colocaria nas alturas, melhor e mais capaz do que todos. Alto lá! Não temos essa bola toda.

Lembro-me de uma moça que carregava um sentimento de culpa terrível, com consequências danosas no seu cotidiano. Engravidou acidentalmente e teve ideias de abortar. Não o fez e tem muito prazer com o filho, mas segue purgando, sofrendo e tendo uma vida errante, só porque pensou em abortar. Pensar coisas ruins, evidentemente, não é pecado e não leva ninguém à cadeia. Nesse caso, essa pessoa se acha muito importante, grandiosa, só por ter pensado.
O que o ser humano, este serzinho frágil, poderá no máximo ter é responsabilidade diante da vida, pelos seus atos. Só isso, bem menos do que o sentimento de culpa, que é para os que se acham com a bola muito cheia. Claro, sempre que eu tomar uma decisão, poderei causar aborrecimento, sofrimento, chateação, prejuízos – para mim e para os outros. Assim é a vida. Simples assim.

É necessário, sim, ter senso de responsabilidade. Tomar conta do que é seu, do que está em seu encargo; mas sempre ciente de seus limites e dos limites das situações. Somos responsáveis pelas decisões que tomamos, mas não saberemos o que ocorrerá depois de uma decisão tomada ou de uma palavra dita.
Sempre que escuto alguém fazendo opções entre um suposto certo e um suposto errado, confesso que acende uma luz vermelha dentro da minha cabeça. A ideia simplista de que tudo se resume em certo ou errado demonstra que quem carrega essa estrutura de pensamento é alguém que tem verdades absolutas na sua mente, sintonia com a grandiosidade e onipotência e terreno fértil para desenvolver o malfadado sentimento de culpa.

Há mais de 20 anos, minha mãe estava em Porto Alegre, acompanhando no hospital seu segundo marido, em coma decorrente de um câncer terminal. Percebi que ela estava cansada, abatida. Então insisti que fosse para a praia, passar o fim de semana com minha irmã, que lá estava.
Eu ficaria assistindo meu padrasto. Minha mãe, aos 70 anos, era uma mulher muito ativa, dirigia e se deslocava sem dificuldade alguma. Estava em dúvida se iria, mas eu insisti que fosse. Foi. No caminho, acidentou-se e faleceu.
Confesso a você, leitor, que fiquei muito triste, chateado, abatido. Mas não deixei o sentimento de culpa tomar conta de mim. Tivesse deixado, minha vida teria se tornado uma grande tragédia. Ela foi à praia por uma decisão dela, mesmo que eu a tenha estimulado. Acidentou-se, pelo que soubemos, por descuido e imprudência dela. O que ocorreu foi uma fatalidade, tão somente. Triste, lamentável; mas sem nenhum culpado ativo. Claro que tudo isso não tirou a dor de tê-la perdido dessa forma.

Dr. Nelio Tombini

 

 

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